Os elementos que os compõem são sobretudo estruturas negativas (por exemplo silos e fossas), escavadas no caliço brando, revelando por vezes a convivência entre espaços ligados a actividades domésticas (armazenagem, lixeiras, etc.) e espaços funerários, comprovados pelo aparecimento de enterramentos em fossas. Podemos naturalmente supor a existência de outras estruturas, realizadas em materiais perecíveis (cabanas em madeira ou barro, paliçadas, etc.), que o registo arqueológico não preservou.
A grande quantidade de sítios arqueológicos deste tipo, detectados e intervencionados no âmbito do projecto Alqueva, sobretudo nas regiões de Beringel e Trigaches, é reveladora da intensa ocupação do fértil território dos “Barros Negros” durante a Idade do Bronze, comprovando a consolidação do sistema agro-pastoril.
Qual a sua relação com o povoamento fortificado em altura, que observamos no Outeiro do Circo?
A investigação destes contextos encontra-se ainda numa fase muito precoce, em que escasseiam os estudos de materiais e a atribuição de cronologias seguras às suas fases de ocupação, mas podemos facilmente supor que alguns destes sítios de planície, já ocupados desde o Bronze Pleno, mantiveram as suas características e funções durante o Bronze Final, sendo contemporâneos do Outeiro do Circo e naturalmente integrados na sua esfera de influência, colocando-se eventualmente sob a sua dependência.
As comunidades que habitaram o Outeiro do Circo, assumiriam a gestão de um vasto território, cuja diversidade de formas de exploração e utilização, começa a ser um pouco mais perceptível.
Os novos dados permitem vislumbrar uma verdadeira rede de povoamento hierarquizada e polarizada em torno de um sítio principal, devidamente fortificado e de enormes dimensões, que assumiria o papel de organização e controle de um vasto território que seria preenchido por diversos sítios de dimensões variáveis, situados em zonas planas, que teriam acesso directo aos recursos naturais, que explorariam. Num outro nível, será ainda de supor a existência de pequenas quintas ou granjas, de ambiente familiar, aparentadas aos povoados abertos, quer ao nível da estratégia de implantação, quer no tipo de elementos constituintes, mas de dimensão inferior, que complementariam o povoamento da região.
Falta-nos conhecer ainda outro tipo de espaços, como as necrópoles, onde foram sepultados os habitantes do Outeiro do Circo (os habitantes dos povoados abertos, enterrariam os seus mortos, preferencialmente no próprio local, como sugere o aparecimento de enterramentos em fossas), ou as vias de comunicação, aqui entendidas como caminhos naturais, por onde circulariam bens e pessoas ou os espaços rituais, que poderiam centrar-se em diversos tipos de lugares, como rios, colinas, etc.
O sítio de Arroteia 6
Dentro deste tipo de povoados abertos de planície, enquadra-se o sítio de Arroteia 6, intervencionado pela empresa de arqueologia Palimpsesto, Lda., no âmbito do acompanhamento de obras de abastecimento de água nas freguesias de Santa Vitória, Mombeja e Beringel, da responsabilidade da EMAS, EEM (fig. 1).
Foi descoberto em fase de obra, através da detecção de uma fossa escavada no caliço (figs. 2 e 3), uma vez que não revelava qualquer elemento à superfície que supusesse a sua existência (tal como na maioria dos sítios semelhantes que têm sido intervencionados).
Implanta-se numa plataforma plana de morfologia ovalada, rodeada por pequenos cursos de água sazonais.
Dentro do grupo dos povoados abertos, este sítio assume especial importância por se situar a curta distância do Outeiro do Circo (menos de 1 Km em linha recta – fig. 4) e também por revelar uma ocupação clara do Bronze Final, conforme se comprova através da presença das taças carenadas da Fig. 5, com paralelos em estações de outras regiões, que foram datadas com maior rigor (Santos, et alii, 2008).
Fig. 4 (vermelho: Outeiro do Circo, azul: Arroteias 6)
A intervenção permitiu detectar uma única fossa, onde surgiu diverso material cerâmico (fig. 5 e 6) e um elemento de mó (dormente – fig. 7), para além de barro queimado. Fig. 5
Fig. 7
Estes indícios levam-nos a supor tratar-se de um silo, que após desactivação, serviu como fossa, sendo preenchido com diverso material até à sua completa colmatação (fig. 8).
Os elementos materiais ainda se encontram em fase de estudo, para devida publicação, mas julgamos poder afirmar desde já, que os indícios detectados farão parte de um complexo habitacional de maiores dimensões que se desenvolveria por toda a plataforma, constituindo seguramente mais um povoado aberto, que se relaciona directamente com a ocupação do Outeiro do Circo, ao qual se encontraria directamente subordinado.
Bibliografia
ANTUNES, Ana Sofia, DEUS, Manuela, SOARES, António Monge, SANTOS, Filipe, ARÊZ, Luis, DEWULF, Joke, BAPTISTA, Lídia e OLIVEIRA, Lurdes (no prelo), Povoados abertos do Bronze Final no Médio Guadiana, comunicação apresentada no Encontro Sidereum Ana II, Maio de 2008.
SANTOS, Filipe J. C., AREZ; Luís, SOARES; António Monge, DEUS, Manuela de, QUEIROZ; Paula F, VALÉRIO, Pedro, RODRIGUES, Zélia, ANTUNES, Ana Sofia, ARAÚJO, Maria de Fátima (2008) O Casarão da Mesquita 3 (S. Manços, Évora): um sítio de fossas “silo” do Bronze Pleno/Final na encosta do Albardão, Revista Portuguesa de Arqueologia, vol. 11, n.º 2, pp. 55-86.







