quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Outeiro do Circo: 25 anos de investigação

Assinalam-se, em 2026, os 25 anos do início do Projeto Outeiro do Circo, designação que engloba diversos projetos de investigação que decorreram desde 2001, de forma descontinuada. 

Em 2001 foi aprovado o primeiro projeto, com o título "A Transição Bronze Final / I Idade do Ferro no Sul de Portugal. O caso do Outeiro do Circo", no âmbito do PNTA - Plano Nacional de Trabalhos Arqueológicos 2001 – 2002. No entanto, nesse ano não houve financiamento para os PNTA, situação que impediu o cumprimento dos objetivos principais, que passavam pela realização de sondagens na muralha, na zona de entrada e área habitacional, prospecções intensivas no interior do povoado e trabalhos de fotointerpretação. Apesar dos constrangimentos, foi possível efetuar alguns trabalhos de prospecção e de fotointerpretação, materializados no primeiro artigo publicado após os trabalhos de Rui Parreira em 1977. Foi assim possível rever a área de ocupação do Outeiro do Circo, anteriormente cifrada em 8 hectares, e agora com 17 hectares, caracterizar sumariamente a estrutura da muralha, recolher alguns materiais, publicar uma nova planta e detectar elementos inéditos como um afloramento gravado com "covinhas". 


Em 2002 surgiam os primeiros percalços, com submissão de um novo projeto com os mesmos objetivos de 2001, uma vez que o concurso nacional dos PNTA havia tido dotação financeira, mas a candidatura não foi aprovada por não se terem cumprido os objetivos do projeto anterior!!!

Sucede-se uma longa pausa que serviu para aferir outras possibilidades de apoios e que resultaria na submissão e aprovação de novo projeto em 2008, que contou com o apoio financeiro e logístico da Câmara Municipal de Beja, permitindo desta forma a realização das primeiras escavações arqueológicas no sítio. Este projeto, que manteve a mesma designação do anterior e contou ainda com o apoio da Junta de Freguesia de Mombeja e da empresa Palimpsesto, incidiu sobretudo na realização de uma sondagem na muralha e outra no interior do povoado, para além da realização de prospecções regulares e na criação de um programa de Educação Patrimonial, que haveria de ganhar forte impacto nos anos seguintes. Este projeto acabaria por se estender até 2013, com uma paragem em 2012 por falta de financiamento e permitiu a identificação do sistema construtivo da muralha, para além dos primeiros estudos arqueométricos, resultantes de diversas colaborações (datações absolutas, arqueometalurgia, arqueometria sobre cerâmica e líticos, e zooarqueologia), bem como de diversas iniciativas de divulgação (visitas, percursos, conferências, exposições, workshops, etc.). 


O ânimo pelos resultados obtidos levou a assumir a necessidade da continuação através de novo projeto, desenvolvido entre 2014 e 2014, com o título "O povoado do Bronze Final do Outeiro do Circo (Beja)", novamente financiado pela Câmara Municipal de Beja e apoiado por diversas entidades. Esta fase focou-se essencialmente na área interior do sítio, através de trabalhos geofísicos e sondagens arqueológicas e na intensificação das ações de divulgação. No entanto, as escavações no espaço interno evidenciaram escassos resultados devido à fraca potência estratigráfica resultante da erosão e utilização agrícola do sítio, assumindo-se a necessidade de voltar a escavar junto à muralha. 


Os resultados obtidos numa sondagem próxima à muralha serviram de mote para a conceção de outro projeto, desenvolvido entre 2019 e 2021, depois de mais uma vez não ter sido aprovado uma proposta em 2018. Assim, com a designação "PAOC - Projeto Arqueológico do Outeiro do Circo", estes trabalhos, novamente apoiados pelo município e outras instituições, permitiram uma escavação em área, ligando um troço da muralha com a área interior, onde também se identificaram estruturas, como muros e uma zona de combustão. 


Com o fim destes trabalhos houve necessidade de repensar a continuidade do projeto, conduzindo a novo momento de pausa, que foi aproveitado para desenvolver um projeto diferente, que não implicou ações no terreno, priorizando os trabalhos analíticos e de estudo da vasta coleção de materiais, em simultâneo com o desenvolvimento de ações de formação e divulgação, intitulado "Projeto de Investigação e Divulgação do Outeiro do Circo 2022-2023". 


Eis-nos chegados ao momento atual, com o retomar dos trabalhos de campo, após uma ausência de 5 anos, com o "Projeto Arqueológico Outeiro do Circo: novos contributos para a biografia e para o envolvimento comunitário", a desenvolver entre 2026 e 2029, um projeto que assume o passado de investigação sobre o sítio, mas que junta novos elementos, novas atitudes e novos conceitos e um ambicioso objetivo de criar condições para a futura visitação do Outeiro do Circo. 


São 25 anos marcados por paragens, por fases intensas, pela consolidação da investigação, por um vasto programa de divulgação, por muitos apoios e colaborações, que iremos assinalar com diversas novidades até 2027. Não se tratará apenas de fazer o balanço do percurso realizado, mas sobretudo de assinalar a data como uma verdadeira comemoração e um apontar de novos caminhos. 

Fique atento, que em breve haverá mais novidades. 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Trilhos do Outeiro do Circo

A prova de trail "Trilhos do Outeiro do Circo" teve a sua 5ª edição no passado Domingo, 20 de Setembro, e registou a maior participação de sempre, com cerca de 250 inscritos, aos quais há que acrescer diversos acompanhantes e os cerca de 70 voluntários que apoiaram a organização, da responsabilidade do Grupo Desportivo e Cultural de Mombeja. 

O Projeto Outeiro do Circo esteve representado por diversos membros da equipa, quer no apoio à organização, nomeadamente na zona de abastecimento criada junto ao Outeiro do Circo, quer através da participação da caminhada de 10 km. 





Todos os percursos da prova, caminhada de 10 km, mini trail de 10 km, trail sprint de 15 km e trail de 25 km, tiveram passagem pelo Outeiro do Circo, incluindo a zona de muralha em curso de escavação, que ficou parcialmente a descoberto para permitir aos atletas a sua visualização e a realização de pequenos apontamentos explicativos, sobretudo para os participantes da caminhada. 


Antes do arranque da prova houve ainda momento para uma entrevista de Firmino Paixão ao responsável científico do projeto, Nelson J. Almeida, que brevemente divulgaremos aqui. 

Parabéns a todos o vencedores e participantes e um agradecimento muito especial a toda a equipa do Grupo Desportivo e Cultural de Mombeja e a todas as entidades e pessoas que se envolveram na organização desta fantástica iniciava, que leva ainda mais longe o nome de Mombeja e do Projeto Outeiro do Circo. 



sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Prehistoric Portugal

Durante a campanha arqueológica deste Verão, a equipa do Projeto Outeiro do Circo recebeu a visita de John Iglar, promotor do site Prehistoric Portugal, que realizou uma entrevista a Nelson J. Almeida, responsável científico do projeto.


A reportagem já se encontra disponível no canal de youtube do Prehistoric Portugal e o Outeiro do Circo passou a ter uma ficha informativa no site. 

Os nosso agradecimentos ao John Inglar pela excelente promoção que faz do património pré-histórico português.  

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Nota de imprensa: Conclusão da 1ª campanha do novo projeto arqueológico no Outeiro do Circo

As escavações arqueológicas no povoado fortificado da Idade do Bronze do Outeiro do Circo (Beja) foram retomadas após um interregno de 5 anos, através de um novo projeto de investigação, cuja primeira campanha de trabalhos foi concluída no dia 11 de setembro. 

Os trabalhos deste Verão incidiram no alargamento de uma área de escavação anterior, com o objetivo de clarificar diversos aspetos relacionados com a construção da muralha e a sua articulação com outras estruturas localizadas no interior do povoado. 

Nas novas áreas intervencionadas apenas foi possível remover as terras resultantes das utilizações agrícolas mais recentes do sítio e iniciar a escavação dos níveis relacionados com o abandono do sítio, no final da Idade do Bronze, há cerca de 3000 anos.

Entre os materiais recolhidos destaca-se a grande quantidade de cerâmica, com alguns artefactos inéditos, como um polidor em cerâmica, cuja função concreta ainda terá de ser determinada, e outros relacionados com a agricultura, como os designados elementos de foice, elaborados em pedra, que são relativamente frequentes no Outeiro do Circo. 

O retomar do projeto permitiu reforçar as ações de divulgação, com visitas regulares aos trabalhos em curso, a realização de conferências informais dirigidas à população local e aos participantes no projeto e o desenvolvimento de diversas ações de colaboração. 

Destaca-se ainda a organização de uma conferência em parceria com o Museu Rainha Dona Leonor, que trouxe até Beja um dos grandes especialistas mundiais na Idade do Bronze, o Professor Johan Ling, da Universidade de Gotemburgo (Suécia), para debater as ligações entre a Península Ibérica e a Escandinávia nesta época. 

O Projeto Outeiro do Circo é coordenado pelo Professor Nelson J. Almeida, da Universidade de Évora, contando com o financiamento da Câmara Municipal de Beja e o apoio do Museu Rainha Dona Leonor, entre outras entidades, sendo desenvolvido pela cooperativa O Legado da Terra. 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Balanço da 4ª semana de escavações

A 4ª e última semana da campanha de 2026 no Outeiro do Circo permitiu a continuação da escavação do nível de abandono do sítio e o início da definição de alguns derrubes, quer da muralha, quer das estruturas no interior do povoado. Esta fase releva maior quantidade de artefactos do Bronze Final, escasseando os materiais associados a fases mais recentes de utilização do sítio, uma vez que estes níveis se encontram a uma profundidade superior aos revolvimentos produzidos pelas lavouras mais recentes. 


Mas, a etapa final desta campanha ficou ainda marcada pelas muitas visitas e pela variedade de presenças, tal como nas semanas anteriores, que trouxeram ao Outeiro do Circo profissionais do sector, técnicos das entidades parceiras, população local, turistas de passagem, membros do executivo municipal, convidados e outros interessados. 


Em termos de divulgação, a Taberna Os Compadres, em Mombeja, acolheu duas Barferências Intercalares, a cargo de Clara Guerreiro e Francisco Ferreira. A conferência de Johan Ling sobre o papel do atual território português enquanto encruzilhada de redes de contactos durante a Idade do Bronze na fachada atlântica, foi fruto da colaboração com o Museu Rainha Dona Leonor, decorrendo no magnífico espaço do Núcleo Visigótico, na Igreja de Santo Amaro, em Beja, perante uma sala cheia. 





Os últimos dias foram dedicados às limpezas de pormenor e aos registos gerais da área de escavação, bem como de algumas peças "especiais", que em breve serão disponibilizadas ao público e aqui anunciadas. 

Após a finalização dos trabalhos no dia 11 de Setembro, houve ainda um regresso ao Outeiro do Circo para cobrir a área de escavação com vista à sua proteção dos elementos naturais, mas deixando a muralha visível até 20 de setembro para os participantes da prova "Trilhos do Outeiro do Circo", com passagem pelo local. 

Nesta semana final estiveram presentes os responsáveis científicos Nelson J. Almeida, João Barreira e António Diniz, a que se juntaram os restantes elementos da direção do projeto nos últimos dias: Miguel Serra, Eduardo Porfírio e Sofia Silva. A equipa foi ainda constituída pelos parceiros e voluntários Carlos Rocha, Clara Guerreiro, Pedro Godinho, Francisco Ferreira, Margarida Rodrigues, José Poças e José Carreiro. 

Nas próximas semanas iremos publicar uma série de notícias e balanços relativos ao projeto anterior e que ficaram em atraso, bem como algumas novidades em preparação, uma vez que o Projeto Outeiro do Circo tem as suas portas abertas todo o ano! 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Balanço da conferência de Johan Ling

O Museu Rainha Dona Leonor acolheu, no Núcleo Visigótico da Igreja de Santo Amaro, em Beja, uma conferência do Professor Johan Ling, da Universidade de Gotemburgo (Suécia), organizada em parceria com o Projeto Outeiro do Circo. 

Antes da sessão, a manhã foi reservada para uma visita ao Outeiro do Circo, que contou com a presença do orador, acompanhado pelos professores Cecília Lindhé, também da Universidade de Gotemburgo, e Mark Hunt Ortiz, da Universidade de Sevilha, membros do projeto Maritime Encounters. 

A conferência procurou explorar as relações entre a Península Ibérica, com especial enfoque no território português, e a Escandinávia durante a Idade do Bronze, com base nos resultados do projeto Maritime Encounters. Entre os muitos aspetos abordados destaca-se principalmente a presença de artefactos em liga de cobre em territórios escandinavos, cuja proveniência da matéria-prima se encontra atribuída a algumas minas do Sul de Espanha, mas também outros pontos de comparação, como a relação com a arte rupestre no Norte de Portugal e Galiza, sobretudo pela representação de embarcações similares às escandinavas ou certas formas presentes nas Estelas da Idade do Bronze, que também encontram paralelos em territórios mais a Norte. 

Durante a sessão foram ainda apresentados os principais resultados do projeto RAW - Rock, Art, Atlantic Europe, Words and Warriors, que permitiu a digitalização da coleção de estelas pré e proto-históricas do Museu Rainha Dona Leonor em 2021, num trabalho realizado por Marta Díaz-Guardamino, da Universidade de Durham e que também é uma das responsáveis pelo projeto Maritime Encounters. 

Esta iniciativa serviu para demonstrar a importância do trabalho em rede e da cooperação com diversas instituições europeias, que nos permite uma visão abrangente e enquadrar os trabalhos desenvolvidos no Outeiro do Circo em diferentes escalas de análise.

Por fim, resta mencionar que a conferência contou com 36 assistentes e proporcionou um interessante debate no final.


quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Barferências intercalares

As Barferências no Projeto Outeiro do Circo servem, em primeiro lugar, para apresentar o historial de investigação sobre o sítio e o respetivo enquadramento regional em sessões informais, mas também para que os voluntários e participantes divulguem os seus próprios trabalhos, num espírito de partilha entre a equipa. 

Assim, no dia 8 de Setembro, houve lugar a duas Barferências Intercalares, como sempre, na Taberna Os Compadres (Mombeja), a cargo de dois dos participantes na presente campanha arqueológica, Clara Guerreiro e Francisco Ferreira. 

A Clara apresentou o tema da sua tese de mestrado, sobre Zooarqueologia do período medieval e moderno em sítios arqueológicos na área urbana de Setúbal, enquanto o Francisco trouxe-nos o seu seminário de licenciatura sobre o Castro do Amaral, sítio do Bronze Final/Idade do Ferro situado em Alenquer. Refira-se que ambos os trabalhos foram defendidos na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Clara Guerreiro


Francisco Ferreira