domingo, 25 de março de 2012

Projecto Outeiro do Circo - Balanço da investigação realizada (2008 – 2011)


Os trabalhos arqueológicos desenvolvidos no âmbito do projecto “A transição Bronze Final / I Idade do Ferro no Sul de Portugal. O caso do Outeiro do Circo” consistiram na realização de quatro campanhas, desenvolvidas no Outeiro do Circo (Mombeja/Beringel), nos meses de Agosto entre 2008 e 2011, totalizando 80 dias de trabalho de campo, que envolveram cerca de 60 participantes em regime de voluntariado.

Visita do Mestrado Arqueologia e Território - Universidade de Coimbra.

Os trabalhos incidiram principalmente na realização de uma sondagem arqueológica de 14 m x 4 m, localizada numa área de talude no sector Sudoeste do Outeiro do Circo, tendo também sido intervencionada outra área de 2 m x 2 m no interior do povoado (sector Sul). Outros trabalhos incluíram a realização de levantamentos de arte rupestre, prospecções, levantamentos topográficos e fotointerpretação.

Visita guiada às escavações do Projecto Outeiro do Circo.

Os principais resultados obtidos centraram-se na escavação de um talude onde se detectou uma estrutura complexa que designamos como “muralha compósita”, uma vez que integra elementos diferenciados combinados entre si. Esta estrutura era formada por um muro superior com dupla face, que integrava uma base de pedra de média dimensão preenchida no interior por pedra miúda. Este muro, que confinaria com o interior do povoado, estava edificado sobre uma plataforma de terras compactadas que faria a regularização do terreno. Sob esta plataforma detectou-se a existência de uma extensa rampa de barro cozido que terá servido para consolidar a pendente. Na base do talude encontrava-se um espesso muro de contenção que delimitava a área exterior do povoado. No desmonte desta estrutura observou-se a existência de um fosso de dimensões consideráveis (3 m de largura por 2 m de profundidade) que terá pertencido a um dispositivo defensivo anterior.

Visita guiada às escavações do Projecto Outeiro do Circo.

Este conjunto de estruturas forma uma muralha de características singulares e dimensões excepcionais (11 m de largura num desnível de 5 m) dentro da Idade do Bronze, constituindo um exemplo revelador da capacidade construtiva das comunidades instaladas no Outeiro do Circo ao longo deste período.

Comunicação nas II Jornadas de Pré e Proto-História da FLUC.

Os materiais recolhidos em escavação revelam uma ocupação centrada da fase final da Idade do Bronze e são constituídos por um conjunto diversificado onde se destaca a presença maioritária de cerâmica de uso doméstico e alguns recipientes de armazenagem. Dentro das cerâmicas decoradas destaca-se a presença de um importante conjunto de fragmentos de cerâmica de ornatos brunidos. Os restantes artefactos englobam elementos líticos, como mós de vaivém, denticulados de foice ou adornos, e elementos metálicos como um conjunto formado por um anel, uma argola e um brinco ou pendente, assinalando-se também a presença de alguns restos de fundição.

Acção de Formação aos participantes no projecto.

Também foram recolhidos alguns elementos que se integram na categoria dos ecofactos e que são constituídos por abundantes elementos faunísticos e amostras de sedimento para recolha de sementes, que permitirão trabalhos de investigação futuros para aprofundar o conhecimento sobre o paleoambiente, a produção e a economia do Outeiro do Circo.

Mostra de Arqueologia, Artesanato, Gastronomia, Pintura e Quadras de Mombeja.

Ao longo dos quatro anos de investigação procurou-se também a integração dos dados obtidos no Outeiro do Circo com os resultados provenientes de diversos trabalhos de arqueologia preventiva efectuados numa ampla região envolvente e que permitem que se inicie a tarefa de sistematização da evolução do povoamento ao longo da Idade do Bronze na zona dos “Barros Negros” de Beja.

Comunicação no II Encontro de jovens investigadores do CEAUCP/CAM.

Para além dos inegáveis contributos de carácter científico obtidos, será de destacar a criação de um programa social e de divulgação generalista que permitiu uma série de acções conducentes a um maior reconhecimento deste projecto e que pretendeu assumir-se como um factor de educação patrimonial, na qual foram agentes principais as populações locais, pelo empenho e interesse com que acompanharam o desenvolvimento do projecto. Em seguida apresenta-se uma lista das acções de divulgação, de âmbito científico e social, já realizadas.

in PAOC - Projecto Arqueológico Outeiro do Circo - Projecto de Investigação Arqueológica (2012-2015), Documento policopiado entregue à Câmara Municipal de Beja.



sexta-feira, 9 de março de 2012

Conferência na Associação Arqueológica do Algarve



No próximo dia 08 de Maio o Projecto Outeiro do Circo apresenta os resultados de quatro anos de actividade numa conferência na sede da Associação Arqueológica do Algarve. Mais informações aqui.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Cerâmica do Outeiro do Circo

O conjunto cerâmico exumado ao longo das quatro campanhas (2008 – 2011) realizadas no Outeiro do Circo está a ser estudado no âmbito da tese de mestrado de uma das colaboradoras do projeto de investigação, Sofia Silva, sob o título: “O Povoado do Outeiro do Circo (Beja) no seu quadro regional - Contributos dos materiais cerâmicos”

O total de peças inventariadas ascende a 10186 fragmentos repartidos do seguinte modo:
- Classificáveis: 2938
- Inclassificáveis: 7248

A grande maioria é proveniente da sondagem 1, escavada numa área de talude onde se detetou uma muralha compósita, com um total de 8742 fragmentos, enquanto que na sondagem 2 foram recolhidos 1058 fragmentos, para além das 386 recolhas de superfície efetuadas em diferentes zonas do povoado.

Dentro deste conjunto destaca-se a presença de 52 fragmentos de ornatos brunidos de motivos geométricos. As restantes cerâmicas decoradas estão representadas por apenas mais 5 peças, mostrando a sua presença residual.

O estudo e inventário das cerâmicas do Outeiro do Circo contam ainda com a participação de Diana Fernandes, mestranda na Universidade de Coimbra e colaboradora do projeto para além de diversos alunos da licenciatura em Arqueologia e História da mesma instituição.

Ao longo dos próximos meses e com a evolução do estudo serão aqui apresentados mais alguns dados que ajudem a perceber as características da ocupação humana do Outeiro do Circo durante o Bronze Final.

Os restantes materiais, nomeadamente os metais e os líticos, aguardam o estabelecimento de colaborações para o seu estudo.








terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A ocupação do território 1

Damos início a uma nova secção neste blog, dedicada à descrição de diversos sítios do II e I milénio a.n.e no território envolvente ao Outeiro do Circo, com o objectivo de apresentar uma visão mais completa da ocupação humana nos “Barros Negros” de Beja ao longo deste período.

Cabeço da Serpe (Mombeja) – Povoado em altura da Idade do Bronze

O primeiro sítio a destacar corresponde ao Cabeço da Serpe, ao qual já se fez aqui uma breve menção (diário de campanha 2 de Agosto). Trata-se de um cabeço aplanado de baixa altitude (258 m) onde se observam diversos blocos de afloramento à superfície.

Nas vertentes Oeste e Norte apresenta-se ladeado por um talude bem demarcado ao qual foi adossado uma estrutura circular constituída por grandes blocos graníticos. Apesar de esta estrutura ser referida na Carta Arqueológica de Beja (Ricardo e Grilo, no prelo) como uma provável linha de muralha, julgamos que poderá antes corresponder a uma estrutura de acesso e regularização de caminhos relacionadas com a exploração de uma pedreira que aí laborou até meados do século XX.

Entre os materiais recolhidos pela equipa de arqueologia da Câmara Municipal de Beja contam-se sobretudo cerâmicas manuais com bordos esvertidos e taças carenadas distribuídos pela zona aplanada do topo, que permitiram o seu enquadramento entre o Calcolítico e a Idade do Bronze.

As recolhas efectuadas em prospecções no Verão de 2011 pela equipa do Projecto Outeiro do Circo confirmam os dados já referidos, apesar da escassez de materiais observados.

A proximidade com o Outeiro do Circo (cerca de 1 km) leva-nos a supor a existência de uma fase de ocupação integrada no Bronze Final, que associe os dois povoados a uma mesma lógica de controlo do território.

Considerando que o Outeiro do Circo tem a sua visibilidade nesta direcção (Noroeste) limitada pelos relevos do Cabeço da Serpe, este seria o lugar indicado para instalar um fortim ou atalaia que permitisse o domínio visual para as áreas de planície a Norte e para as zonas serranas a Oeste – Noroeste.

A existência de redes de povoamento que integrem sítios com este tipo de funções associados a povoados fortificados está escassamente documentada no território português durante a Idade do Bronze, mas pode ser referido o caso do Castelo do Giraldo (Évora) que José Morais Arnaud identifica como um possível fortim dependente do povoado da Corôa do Frade (Arnaud, 1979: 87). Um outro sítio também considerado como atalaia é o Cabeço do Cucão (Viseu), localizado fora do âmbito geográfico da nossa área de estudo, mas relevante por ter sido um dos raros sítios deste tipo alvo de sondagens arqueológicas (Senna-Martinez et al, 1993).

No âmbito da possível continuação dos trabalhos arqueológicos do Projecto Outeiro do Circo assumirá especial importância a necessidade de se efectuarem algumas sondagens de avaliação no Cabeço da Serpe de modo a confirmar se este faria parte de uma estruturação do povoamento organizada a partir do Outeiro do Circo, com a emergência de diversos outros sítios com funções diferenciadas na gestão e apropriação do espaço físico.

Bibliografia:
ARNAUD, J. M. (1979) – Corôa do Frade. Fortificação do Bronze Final dos arredores de Évora: escavações de 1971/1972. Madrider Mitteilungen. Heidelberg. 20, p. 56-100.

RICARDO, I. e GRILO, C. (no prelo) – Carta de Património arqueológico e arquitectónico. Beja – Caderno de Mombeja. Câmara Municipal de Beja.

SENNA-MARTINEZ, J.C., NASCIMENTO, A., CARVALHO, A. e ALMEIDA, F. (1993) – A ocupação do Bronze Final do Cabeço do Cucão, Pedra Cavaleira (Silgueiros, Viseu): uma primeira análise. Trabalhos de Arqueologia da EAM. Lisboa. Colibri. 1, p.143-147.

Outeiro do Circo e Cabeço da Serpe. CMP 1:25000, folha 520

Outeiro do Circo e Cabeço da Serpe. Google Earth

Cabeço da Serpe. Vista do Outeiro do Circo, direcção Noroeste.

Muralha Sudoeste do Outeiro do Circo. Vista a partir do Cabeço da Serpe

Cabeço da Serpe. Pedreira

Cabeço da Serpe. Pedreira

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Fauna do Outeiro do Circo

A campanha de escavações de 2011 no Outeiro do Circo revelou uma assinalável presença de restos faunísticos em duas unidades estratigráficas associadas à base pétrea do muro superior que integrava a muralha compósita.
Concentravam-se numa área de 4 x 2 m entre a face interna do muro superior e o limite da sondagem. Estas unidades prolongam-se para o interior do povoado, podendo revelar a presença de contextos habitacionais relacionados com a preparação de alimentos, assumindo-se como prioridade o alargamento desta área de escavação.
O facto de haver colagénio em quantidade suficiente em alguns ossos analisados (agradece-se neste capítulo a colaboração de António Monge Soares) permite expectativas em relação a futuras datações por radiocarbono que serão de extrema importância para datar a construção de parte do sistema defensivo.
Também é expectável o estudo zooarqueológico no decurso do próximo ano.





segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Conferência na Escola Secundária D. Manuel I (Beja)

Realizou-se no dia 14 de Novembro de 2011 uma conferência acerca dos resultados e perspectivas de futuro do Projecto Outeiro do Circo na Escola Secundária D. Manuel I em Beja.
Salienta-se a enorme adesão registada, com a presença de mais de duas centenas de participantes entre professores e alunos.
Enquanto responsáveis pelo projecto, é com enorme satisfação que encaramos a nossa participação neste tipo de iniciativas e esperamos que no futuro seja possível que outras acções de divulgação sejam tão bem sucedidas como esta conferência.
Por último, resta-nos agradecer o amável convite da Escola Secundária D. Manuel I e em particular aos professores Francisco Serafim e Augusto Moisão que promoveram a iniciativa.

sábado, 12 de novembro de 2011

Conferência na Escola Secundária D. Manuel I (Beja)


Na continuidade das acções referentes ao projecto social dos trabalhos arqueológicos em curso no Outeiro do Circo (Mombeja, Beringel) vai ter lugar na Escola Secundária D. Manuel I em Beja uma conferência no dia 14 de Novembro às 10:00 direccionada para os alunos desta instituição para divulgação dos resultados obtidos nos últimos quatro anos.



Título:
A Idade do Bronze na região de Beja. Passado, Presente e Futuro.

Conferencistas:
Miguel Serra, arqueólogo, licenciado em História, variante de Arqueologia pela Universidade de Coimbra (1999). Mestrando em Arqueologia e Território na Universidade de Coimbra. Membro da empresa de arqueologia Palimpsesto, Estudo e Preservação do Património Cultural, Lda. Colaborador do Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e Porto.
Co-director do projecto de investigação “A transição Bronze Final / Iª Idade do Ferro no Sul de Portugal. O caso do Outeiro do Circo”.
Direcção de trabalhos de campo centrados no domínio da Idade do Bronze no Baixo Alentejo.
Autor de cerca de trinta artigos sobre Arqueologia.

Eduardo Porfírio, arqueólogo, licenciado em História, variante de Arqueologia pela Universidade de Coimbra (1999). Mestrando em Arqueologia e Território na Universidade de Coimbra. Membro da empresa de arqueologia Palimpsesto, Estudo e Preservação do Património Cultural, Lda. Colaborador do Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e Porto.
Co-director do projecto de investigação “A transição Bronze Final / Iª Idade do Ferro no Sul de Portugal. O caso do Outeiro do Circo”.
Direcção de trabalhos de campo centrados no domínio da Idade do Bronze no Baixo Alentejo e na Beira Interior.
Autor de cerca de trinta artigos sobre Arqueologia.

Apresentação:
A Idade do Bronze (2000 – 800 a.C.) constitui-se como um marco civilizacional ímpar no desenvolvimento das sociedades europeias, o que levou o Conselho da Europa em 1995 a considerar este período como paradigma da unidade europeia.
Quando comparado com o quadro europeu, o Sudoeste peninsular destaca-se particularmente pela relevância e quantidade de sítios e achados arqueológicos datáveis no 2.º milénio antes da nossa era, patente por exemplo em vários povoados e necrópoles.
Na região de Beja, a intensidade da exploração agrícola, conjugada com a realização de algumas obras rodo e ferroviárias, originaram uma sucessão impressionante de achados da Idade do Bronze que mereceram a atenção de personalidades importantes da arqueologia nacional e internacional.
No início do século XXI os trabalhos de escavação sistemática num dos povoados mais emblemáticos da pré-história do Sul de Portugal, o Outeiro do Circo, pretendiam contribuir com dados arqueológicos para uma melhor compreensão da problemática do povoamento da Idade do Bronze.
A arqueologia preventiva realizada no âmbito de empreendimentos públicos e privados localizados na área envolvente do Outeiro do Circo, tem contribuído de forma decisiva para o conhecimento de algumas realidades, mais ou menos contemporâneas deste grande povoado fortificado, através da identificação de inúmeros sítios de planície, que testemunham a grande dimensão da ocupação humana do território e a intensidade da exploração dos seus recursos naturais.
Entre os aspectos particulares a destacar conta-se a descoberta de um troço de muralha no Outeiro do Circo que conjuga arquitecturas de terra e de pedra e soluções construtivas que revelam a adaptação destas comunidades aos condicionalismos naturais.
Este projecto irá explorar ainda as potencialidades de outras disciplinas como a química, a botânica, a geografia ou a zoologia, entre outras para obtenção de conhecimento sobre o passado, através da análise de diversos tipos de vestígios recolhidos durante o processo de escavação, como as sementes, os ossos de animais, as cerâmicas, os metais ou as amostras de sedimento.

Objectivos:
A conferência proposta pretende dotar o público escolar com as bases para o reconhecimento da particular importância da Idade do Bronze na região de Beja. Em paralelo, pretende-se demonstrar a importância do contributo da arqueologia para o desenvolvimento sustentado baseado na exploração do património cultural como fonte de conhecimentos, expediente educativo e recurso socioeconómico.

Bloco 1 – Enquadramento acerca da arqueologia enquanto disciplina científica. Introdução sobre divisões cronológicas e sobre o conceito de Idade do Bronze. História da investigação sobre a Idade do Bronze na região. Exposição dos principais resultados obtidos no decurso de 4 campanhas de escavação no povoado do Outeiro do Circo.

Bloco 2 – Identificação das principais linhas de investimento futuro, nomeadamente no que toca à exploração das potencialidades interdisciplinares do projecto em curso.
Pretende-se igualmente, familiarizar o público com alguns aspectos inovadores deste período histórico e com diversos aspectos da prática arqueológica, principalmente no que concerne à concepção da educação patrimonial como uma forma de envolvimento das comunidades locais na defesa do seu património cultural.

Programa:
10:00 – Conferência
10:45 – Debate