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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

V Congresso de Arqueologia do Sudoeste - Posters

Metais da Idade do Bronze do Museu de Beja.
Carlo Bottaini (FLUC; CEAUCP-CAM), Miguel Serra, Eduardo Porfírio (Palimpsesto, Lda.; CEAUCP-CAM)



Resumo
Apesar da intensidade de ocupação durante toda a Idade do Bronze nesta região, atestada pelo grande número de achados e sítios arqueológicos, os artefactos metálicos revelam-se escassos, documentando uma metalurgia de pequena escala efectuada em âmbito doméstico.
No Museu Regional Rainha Dona Leonor, em Beja, encontram-se depositados diversos materiais metálicos da Idade do Bronze procedentes da zona de Santa Vitória e Ervidel, conhecidas pela presença de importantes núcleos de necrópoles de cistas.
Apresenta-se o levantamento de todo o conjunto artefactual de metais deste período, no âmbito de novo estudo que pretende uma integração mais rigorosa, quer cronológica quer espacial, na realidade cultural do Bronze do Sudoeste na região de Beja.



Introdução
O presente trabalho resulta da necessidade dos autores efectuarem uma revisão dos conhecimentos sobre os metais da Idade do Bronze da região Oeste de Beja, em função das investigações desenvolvidas por estes num quadro de formação académica avançada e pelos trabalhos efectuados pelos signatários no âmbito do projecto “A transição Bronze Final / I Idade do Ferro no Sul de Portugal. O caso do Outeiro do Circo”.
Esta abordagem centra-se apenas no conjunto de peças existente no Museu Regional Rainha Dona Leonor, em Beja, mas pretende integrar os restantes elementos recolhidos nesta área geográfica.



Contextualização histórica
A zona ocidental dos “Barros Negros” é reconhecida pela presença de importantes achados e estações arqueológicas da Idade do Bronze do Sudoeste, nomeadamente as várias necrópoles de cistas do Bronze Médio que se concentram em dois importantes núcleos, a Norte, na Ribeira da Figueira e a Sul, na Ribeira do Roxo (Parreira, 1995: 132) e o imponente povoado do Outeiro do Circo com ocupação do Bronze Final (Serra et al., 2008). Neste vasto território também são conhecidos diversos achados casuísticos integráveis neste período, assumindo maior expressão a existência de diversas estelas (Barceló, 1991).
Actualmente assiste-se a um aumento exponencial de informação sobre a ocupação deste período na região, com a recente detecção de diversos povoados abertos de planície (Antunes et al., no prelo).
Os artefactos metálicos da Idade do Bronze nesta região pecam pela escassez, sendo sobretudo conhecidos pela sua associação a necrópoles.
Os primeiros metais referidos são os machados e o escopro da Mina da Juliana (Veiga, 1886: IV, 211), os dois punhais e o punção de Ervidel (Vasconcellos, 1927-29: 202) e um conjunto diversificado que inclui machados, punhais e uma ponta de dardo da região de Santa Vitória (Viana, 1944: 163, 164).
É apenas em meados do século XX que surgem os primeiros metais em contexto de escavação, na necrópole do Ulmo (Santa Vitória), onde são exumados dois punhais e um punção (Viana e Ribeiro, 1956). Um outro punhal descoberto anos mais tarde é também integrado numa necrópole (Medarra, Ervidel), apesar de se tratar de uma oferta (Ribeiro, 1966-67: 386).
A única peça proveniente do povoado do Outeiro do Circo e recolhida em prospecções corresponde a um cinzel (Parreira e Soares, 1980:115).
Na colecção do Museu Regional Dona Leonor em Beja encontram-se algumas das peças recolhidas nesta região, mas com pouca relevância quando comparadas com os restantes elementos integráveis no Bronze do Sudoeste.
É de referir ainda a presença de outras peças provenientes do Alto Alentejo, mais concretamente da região de Fronteira e que revelam o interesse de Fernando Nunes Ribeiro na Idade do Bronze de outras áreas geográficas como forma de tecer comparações com as realidades por ele documentadas mais a Sul.

Descrição do material
No Museu Regional Rainha Dona Leonor foi possível aceder a 11 peças atribuíveis à Idade do Bronze (Tabela 1). O material não tem número de inventário atribuído, pelo que decidimos associar-lhe uma referência nossa.
O contexto de proveniência e as circunstâncias em que os achados ocorreram são, na maioria dos casos, desconhecidos: apenas Bej_3 e Bej_7 apresentam alguma informação a este propósito.
O grupo mais representativo é o dos machados (Bej_1 a Bej_6), todos eles planos, tipologia bastante comum na área de estudo. À excepção de Bej_3, a falta de informações relativas aos contextos de procedência e às circunstâncias em que os achados ocorreram impede-nos avançar com mais detalhes.
O machado plano da Mina da Juliana – Bej_3 – procede de uma mina de cobre onde “…em muita profundidade fôram encontrados alguns machados e escopros de bronze, assim como calháos espheroidaes de pedra (percutores)…” (Veiga 1891: IV, 211, fig. XIII, n. 2 e 3).
Há notícia de mais dois machados planos, tipologicamente idênticos, procedentes da Mina da Juliana, sendo que um se encontra no Museu Nacional de Arqueologia (nr. Inv. 10246) enquanto que outro tem paradeiro desconhecido (Monteagudo 1977, n. 690 e 691; Bittel et al. 1969: II, 3, n. 1635).
Os metais da Mina da Juliana estão provavelmente ligados à exploração de minérios de cobre: a deposição de material metálico e/ou lítico em contextos de minas repete-se com bastante frequência, sendo este fenómeno explicável com actividades de extracção (ex. Alte, Algarve ou Quarta-Feira, Beira Alta entre outros).
O punhal Bej_7 foi encontrado ao “…lavrar numa courela próximo de Ervidel…”, em 1966. A peça foi oferecida a Fernando Nunes Ribeiro que teve, no ano seguinte, a possibilidade de averiguar as circunstâncias e o contexto do achado. A peça provinha de uma das sepulturas (n. 1) da necrópole de Medarra composta por um total de seis inumações em cistas. Foi a única em que apareceu metal. Fernando Nunes Ribeiro, com base na tipologia do material recolhido, atribui a necrópole ao Bronze final (1966-67: 388).
Da ponta de lança Bej_8 nada se sabe em relação quer ao contexto quer às circunstâncias do achado.
Bej_9 e Bej_10, apesar da falta de informações relativas ao contexto de proveniência, atendendo à tipologia e ao sítio de origem, Santa Vitória, fariam possivelmente parte de espólios de sepulturas.
Bej_9 é um punhal de cobre arsenical com dois rebites. Apresenta paralelos tipológicos com peças encontradas nalgumas sepulturas da mesma região (Bugalhos, p. ex.) (Soares 2009: 444, fig. 11, n. 4 e 5).
Bej_10 é uma ponta de dardo, em cobre arsenical (2,75 As) com folha sub-triangular percorrida por ligeira nervura central; apresenta longo espigão de secção circular na extremidade distal e quadrangular na parte proximal. Trata-se de objecto bastante raro em contextos ibéricos encontrando-se documentado quer em povoados (Outeiro de São Bernardo, Moura; Cerro dos Castelos de S. Brás, Serpa) quer em necrópoles (dólmen de La Pastora, Sevilla). Do ponto de vista tipológico, alguns autores procuram paralelos com o Mediterrâneo oriental e o Oriente Próximo (Montero Ruiz et al. 1996; Mederos Martín 2000). A ponta de dardo foi atribuída à II Idade do Bronze (Varela et al. 1986). Contudo, desconhecendo qualquer informação relativamente às circunstâncias do achado considera-se especulação avançar com a atribuição cronológica desta peça.
Finalmente, a ponta de seta BEJ_11, tal como os machados Bej_5 e Bej_6, procedentes de Fronteira, excedem o território de nosso interesse.




Nota 1: Em Bittel et al. 1968 constam analisados mais dois machados planos do Museu de Beja. Todavia, a falta de número de inventário e de descrição e/ou desenhos na publicação acima referida, impede-nos a atribuição discriminada a um dos dois machados planos que se encontram no museu. Ambos apresentam prova de que lhes foi retirada amostra. As análises deram o seguinte resultado: >10 (Sn); <>10 (Sn); 0,075(Pb); 0,58 (As); 0,21 (Sb); 0,13 (Ag); 0,1 (Ni); vest. (Bi) para o nr. 2477.

Conclusões
1. O presente trabalho enquadra-se no âmbito do projecto “A transição Bronze Final / I Idade do Ferro no Sul de Portugal. O caso do Outeiro do Circo”.
2. Procedemos ao levantamento de 11 artefactos metálicos atribuíveis, do ponto de vista tipológico, a diferentes períodos da Pré-História recente.
3. Grande parte do potencial informativo do material metálico por nós inventariado andou perdido: de facto, o desconhecimento das em que as peças foram encontradas e os parcos dados sobre os contextos de proveniência torna possível apenas um enquadramento de carácter eminentemente tipológico.

Bibliografia
Antunes A.S. et al., no prelo, “Povoados abertos do Bronze Final no Médio Guadiana”, Sidereum Ana II, Maio de 2008, Mérida.

Barceló J., 1991, “El Bronce del Sudoeste y la cronología de las estelas alentejanas”, Arqueologia, Porto, 21: 15 – 24.

Bittel, K et al., 1968, Studien Zu Den Anfangen der Metallurgie, Man Verlag, Berlin, B. 2, T.3.

Mederos Martín, A., 2000: “Puntas de jabalina de Valencina de la Concepción (Sevilla) y del área palestino-israelita”. Madrider Mitteilungen 41: 83-111.

Monteagudo L., 1977, Die Beile auf der Iberischen Halbinsel, PBF, Munchen.

Montero Ruiz, I. and Teneishvili, T.O. 1996: “Estudio actualizado de las puntas de jabalina del Dolmen de la Pastora (Valencina de la Concepción, Sevilla)”. Trabajos de Prehistoria 53 (1): 73-90.

Parreira R., 1995, “Aspectos da Idade do Bronze no Alentejo Interior”, em A Idade do Bronze em Portugal – Discursos de Poder, Museu Nacional de Arqueologia, Lisboa: 131 – 134.

Parreira R. et al., 1980, “Zu einigen bronzezeitlichen Hohensiedlungen in Sudportugal”, Madrider Mitteilungen, Madrid, 21: 109 – 130.

Ribeiro, F. N., 1966/67, “Noticiário Arqueológico Regional”, Arquivo de Beja, Beja, vol. 23-24: 382 – 389.

Serra M. et al., 2008, “O Bronze Final no Sul de Portugal – Um ponto de partida para o estudo do povoado do Outeiro do Circo”, Actas do 3º Encontro de Arqueologia do Sudoeste Peninsular, Aljustrel, 26 a 28 de Outubro de 2006, Vipasca, Aljustrel, s. 2, n. 2: 163 – 170.

Soares, A. M., 2000, Necrópole do Bronze do Sudoeste de Bugalhos (Serpa), Vipasca, Aljustrel, 9: 47 – 52.

Vasconcellos J. L., 1927/29, “Estudos da época do bronze em Portugal”, OAP, Lisboa, Série 1, vol. 28: 201 – 203.

Veiga E., 1886, Antiguidades Monumentais do Algarve, IV, Imprensa Nacional, Lisboa.

Viana A., 1944, “Museu Regional de Beja: Ferragens artísticas, esculturas de osso, proto-históricas, machados da idade do bronze, ferragens romanas, jóias de ouro, fivelas, amuletos e outros objectos”, Arquivo de Beja, Beja, vol. 1: 155 – 166.

Viana A. et al., 1956, “Notas históricas, arqueológicas e etnográficas do baixo Alentejo”, Arquivo de Beja, Beja, vol. 13: 110 – 167.

sábado, 20 de novembro de 2010

V Congresso de Arqueologia do Sudoeste - Posters

No rescaldo do V Encontro de Arqueologia do Sudoeste que se realizou nos dias 18, 19 e 20 deste mês em Almodôvar, iremos disponibilizar no blogue ao longo dos próximos tempos, alguns dos posters apresentados e que de algum modo, se relacionam directa ou indirectamente com o Projecto Outeiro do Circo.


Um projecto de arqueologia social em Mombeja (Beja)Eduardo Porfirio e Miguel Serra (Palimpsesto, Lda. / CEAUCP-CAM).

 

Na sua génese o projecto “A transição do Bronze Final/Ferro Inicial no Sul de Portugal – o caso do Outeiro do Circo”, apresentava uma vertente dedicada à interacção com a população, procurando de algum modo, envolvê-la directa ou indirectamente nos trabalhos arqueológicos, evitando o lugar-comum do trabalho científico ser muitas vezes desligado das comunidades onde se insere. Com isto, pretendia-se inscrever o projecto na vivência quotidiana das comunidades, fazendo com que de algum modo, elas o sentissem como seu.
Esta vertente constitui-se também como um meio privilegiado para estruturar um programa cultural de longa duração, que pretende criar raízes e crescer sem perder de vista toda uma série de objectivos relacionados com o desenvolvimento regional e a valorização de bens patrimoniais de cariz local.
Várias instituições e acordos internacionais reconhecem que divulgar e dar a conhecer o património de uma forma estruturada e numa linguagem adaptada ao público-alvo, é uma componente fundamental para a preservação futura desse mesmo património. Deste modo, a divulgação é fulcral para a protecção e qualificação do património arqueológico, não se podendo proteger aquilo que se desconhece (ICOMOS, 1990; Conselho da Europa, 1992; Martín e Sivan, 2010).
A contribuição do património cultural para o desenvolvimento local e regional, é reconhecida desde há muito, no entanto, urge trabalhar no sentido de uma conciliação dos elementos históricos e geográficos individualizadores das localidades com as suas potencialidades económicas. Pretende-se assim, criar uma oferta cultural, regionalmente diferenciada e potencialmente única que proporcione experiências inéditas e distintivas ao turista e contribua para a divulgação do conhecimento sem desvirtuar a componente científica e cultural (Turismo de Portugal, 2007).
Nos dois primeiros anos de projecto (2008/2009), antes que tudo, foi necessário reafirmar localmente a mais-valia histórica e patrimonial do Outeiro do Circo, contrariando a perspectiva de abandono e esquecimento que muitas vezes rodeia os sítios arqueológicos não classificados. Em grande medida isto foi conseguido através da divulgação junto da população local, dos motivos que justificam o interesse que a comunidade científica nacional e internacional tem dedicado a este povoado. Este elemento contribuiu decisivamente para alterar a percepção que os habitantes da área de influência do projecto detinham sobre o sítio arqueológico, funcionando o capital de prestígio das instituições científicas como instrumento certificador da importância deste elemento patrimonial, à escala peninsular.
O processo de divulgação comportou ainda a produção de notas e artigos para a imprensa regional e local, a dinamização de uma campanha intitulada “Visite-nos ou Junte-se a nós” que apelava à participação voluntária nos trabalhos arqueológicos e a realização de visitas guiadas aos trabalhos arqueológicos, contabilizando estas, um total de cento e vinte visitas em dois meses. Foi também concebido uma página no Facebook e um blogue, alojado em www.outeirodocirco.blogspot.com, para divulgar informação relacionada com o projecto num espectro espacial mais alargado.
Visita guiada às escavações do Outeiro do Circo.
 
Participante na Campanha "Visite-nos ou Junte-se a nós".
No geral, procurou-se que estas actividades constituíssem para os participantes uma experiência formativa interessante, fornecendo-se numa linguagem adequada aos destinatários, toda uma série de conhecimentos teóricos e práticos sobre os objectivos e fases do projecto, as características do povoado e respectivo contexto espacial e histórico-cultural, sobre o processo de investigação em arqueologia e de que modo este poder ser rentabilizado a nível local. As repercussões positivas e o interesse demonstrado pelos participantes nas actividades realizadas foram determinantes para a concepção de uma nova fase de actuação, conceptualmente mais aprofundada, assumindo as características de um projecto de educação patrimonial. Este trabalho foi desenvolvido por um dos signatários no âmbito do Mestrado - Arqueologia e Território da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, daí resultando um documento que sistematiza e fundamenta todas as actividades programadas. Sistematização ao nível do discurso e da narrativa utilizados no decurso das actividades de divulgação, para tornar perceptível a importância e o contexto histórico do povoado do Outeiro do Circo. Neste sentido, a inexistência de estruturas arqueológicas escavadas e conservadas, poderia ser um óbice à inteligibilidade da importância do sítio, devido à associação correntemente vulgarizada entre a preservação de elementos estruturais e relevância patrimonial (González Méndez, 1995). Deste modo, a linha de taludes bem evidente no terreno e na fotografia aérea, foi utilizada como elemento central na estruturação do argumento que serve de base às visitas guiadas. Como complemento recorreu-se a alguns dos pressupostos da arqueologia da paisagem, explorando-se a relação de centralidade que o Outeiro do Circo parece desempenhar em relação a um território com grandes potencialidades do ponto de vista agrícola. Alguma da cultura material (cerâmica, elementos de foice e de mós por exemplo) recolhida no decorrer dos trabalhos arqueológicos, pode ser utilizada para reforçar esta perspectiva, que encontra correspondência directa no quotidiano de muitos dos participantes que de um modo ou de outro se relaciona ainda com a ruralidade (González Mendez e Criado Boado, 2000: 56).
A exploração de temáticas relacionadas com a paisagem e o território possibilita igualmente contrariar o carácter unidireccional que muitas vezes regula a relação entre arqueólogos e público (González Marcén, 2010). Neste caso, as comunidades locais são uma fonte de informação insubstituível pois percorrem e trabalham este mesmo território desde há gerações, deparando-se com diversos vestígios do passado e contribuindo com maior ou menor intensidade para a alteração da paisagem.
O projecto tentou salvaguardar e rentabilizar cientificamente algum deste conhecimento, encetando estratégias de colaboração que consistiram na recolha de informações sobre a actividade agrícola e consequentes alterações topográficas no Outeiro do Sítio, sobre vestígios que possibilitem a localização de sítios arqueológicos e também sobre as profundas alterações que a paisagem envolvente sofreu ao longo do século XX com a transformação da charneca em montado e mais recentemente em olival intensivo.
O montado, o olival intensivo e os últimos vestígios da charneca.
Solicitou-se uma participação mais activa, com um apelo à população para colaborar na identificação de locais utilizados como barreiros para a olaria e para fábricas de tijolo. Estas informações serão utilizadas no âmbito da caracterização dos elementos de argila presentes no sistema defensivo do povoado, da responsabilidade de Ana Bica, doutoranda na Universidade de Coimbra e colaboradora do projecto. Deste modo, caminhou-se no sentido de estimular a participação da comunidade local no decurso do próprio processo de investigação, contribuindo para a obtenção de dados que posteriormente serão trabalhados em gabinete e laboratório.
A implementação do novo projecto ao longo do ano de 2010, permitiu desde logo, diversificar as áreas de actuação e rentabilizar o investimento em tempo e recursos através de actividades realizadas em articulação com outras entidades, tais como a Junta de Freguesia de Mombeja, a Associação Juvenil e Cultural de Mombeja e a Biblioteca Municipal de Beja. Em conjunto com as duas primeiras entidades, organizou-se um evento envolvendo os artesãos e artistas da freguesia, em que a participação do projecto materializou-se numa pequena exposição constituída por cartazes, filmes e outro material de divulgação. O projecto Outeiro do Circo apareceu associado com a produção artesanal e artística de Mombeja, numa óptica que privilegia uma concepção abrangente do conceito de património.
                                  Evento em conjunto com os artesão e artistas de Mombeja.
Tornava-se necessário alargar o âmbito espacial da divulgação, apresentando por exemplo o projecto à população da cidade de Beja. Deste modo, articulou-se com a biblioteca desta cidade a realização de uma palestra seguida de debate, dedicada fundamentalmente à apresentação dos resultados de dois anos de trabalhos no Outeiro do Circo na vertente científica e social e uma antevisão das estratégias de investigação e actuação futuras. Este evento foi antecedido de uma exposição com alguma da produção científica alusiva ao projecto, assim como de alguns artigos da imprensa local e regional.
                                                           Exposição na Biblioteca de Beja.

                                  
Palestra na Biblioteca de Beja - Conversas com B de Beja.
Folheto divulgativo.
A estratégia de divulgação do projecto nos meios de comunicação social ampliou-se igualmente, somando à imprensa regional as rádios locais e a televisão. Neste último caso, a concepção de uma reportagem do programa Portugal em Directo da RTP, resultou de um diálogo com os jornalistas, estruturando-se em dois grandes blocos com objectivos diferenciados, um localizado no Outeiro do Circo, dedicado à apresentação dos resultados do projecto e um outro filmado em Mombeja, para dar a conhecer a perspectiva da população e das entidades políticas sobre o decorrer dos trabalhos arqueológicos. A repercussão do repto lançado no final da reportagem, convidando à visita das escavações arqueológicas, materializou-se num incremento do número de visitantes que ascendeu a 80 durante a Campanha de 2010.

"Portugal em Directo" em Mombeja

Ao nível local iniciou-se uma colaboração mensal com o jornal da Associação Juvenil e Cultural de Mombeja, na qual foram sendo apresentados artigos dedicados ao projecto, à investigação em arqueologia e uma série intitulada Viagens pela história da arqueologia de Mombeja, sobre a divulgação do património arqueológico da freguesia, ao mesmo tempo que homenageava as personalidades e instituições responsáveis por esse trabalho.

                                       Jornal da Associação Juvenil e Cultural de Mombeja.



Para o futuro estão planeadas várias actividades nomeadamente uma visita ao Museu Regional de Beja, e uma sessão de divulgação em Mombeja dedicada à apresentação dos últimos desenvolvimentos do projecto e de vários trabalhos realizados pela Palimpsesto Lda. em sítios arqueológicos da freguesia.

Bibliografia:


Conselho da Europa, 1992, Convenção Europeia para a Protecção do Património Arqueológico (revista), http://www.igespar.pt/pt/patrimonio/legislacaosobrepatrimonio/, (consultado em Outubro 2010)

Conselho da Europa, 2005, Convenção Quadro do Conselho daEuropa Relativa ao Valor do Património Cultural para a Sociedade http://www.igespar.pt/pt/patrimonio/legislacaosobrepatrimonio/, (consultado em Outubro 2010)

González Marcén, Paloma, 2010, La dimensión educativa de la arqueología, Memorial Luis Siret - I Congreso de Prehistoria de Andalucía: La tutela del patrimonio prehistórico, http://www.memorialsiret.es/doc/SD-Gonzalez-Dimension-educativa-arqueologia.pdf (consultado em Outubro 2010)

González Méndez, Matilde e Criado Boado, Filipe, 2000, La edad del hierro: de la investigación a la ilustración. Planteamientos y diseño del proyecto de recuperación del castro de Elviña, CAPA, 12, pp. 51-61.

González Mendéz, Matilde, 1995, La concepción de un proyecto de valorización social del património arqueológico. El plan de Toques como referente, Archivo Español de Arqueologia, 68, pp. 225 – 241.

ICOMOS, 1990, Charter for the protection and management of the archaeological heritage, http://www.igespar.pt/pt/patrimonio/legislacaosobrepatrimonio/, (consultado em Outubro 2010)

Martín, Marcelo e Sivan, Renée, 2010, Patrimonio, turismo y rentabilidad socicultural, Memorial Luis Siret - I Congreso de Prehistoria de Andalucía: La tutela del patrimonio prehistórico, http://www.memorialsiret.es/doc/SD-Gonzalez-Dimension-educativa-arqueologia.pdf (consultado em Outubro 2010).

Turismo de Portugal, 2007, Plano Estratégico Nacional do Turismo – Para o desenvolvimento do turismo em Portugal, Ministério da Economia e Inovação, Lisboa.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

V Encontro de Arqueologia do Sudoeste Peninsular

Vai ter lugar entre 18 e 20 de Novembro, o V Encontro de Arqueologia do Sudoeste Peninsular a realizar em Almodôvar.


O projecto Outeiro do Circo estará presente com a apresentação da comunicação:

O Bronze Final nos “Barros de Beja”. Novas perspectivas de investigação.
Miguel Serra e Eduardo Porfírio (Palimpsesto, Lda. / CEAUCP-CAM); geral@palimpsesto.pt

Resumo: No âmbito do projecto de investigação “A transição Bronze Final / Iª Idade do Ferro no Sul de Portugal: o caso do Outeiro do Circo”, têm vindo a ser realizadas escavações no emblemático povoado fortificado do Outeiro do Circo, que possibilitam o estabelecimento de novas considerações sobre o povoamento de altura durante o Bronze Final. Estas intervenções centradas numa zona de talude na parte Sudoeste do povoado, têm permitido documentar um sistema defensivo, que conjuga arquitecturas de terra e de pedra num possível complexo de rampas.

As informações obtidas no terreno, têm sido conjugadas com a realização de trabalhos de fotointerpretação, encarados como um auxiliar precioso para conhecer os limites e a morfologia das muralhas do Outeiro do Circo no conjunto dos seus 17 ha. Assim, tem sido possível definir de forma mais precisa o prolongamento de troços duplamente muralhados e uma área de entrada defendida com dois bastiões anexos à muralha.

Para além da ocupação no Outeiro do Circo, assiste-se actualmente a um grande incremento de dados sobre o IIº milénio num vasto território envolvente, possibilitado por intervenções de emergência associadas a grandes projectos públicos como o Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva. Surgiram grandes novidades relacionadas com a ocupação de planície, revelando uma intensa ocupação do território através de estratégias complexas, materializadas nos povoados abertos de fossas. As novas perspectivas de investigação que este conjunto de informações possibilita, lança-nos o desafio de procurar compreender as estratégias de povoamento ao longo da Idade do Bronze nesta região.

Será também apresentada uma comunicação referente a um sítio da Idade do Bronze intervencionado pela empresa Palimpsesto, Lda., mas que integra também o âmbito da investigação do projecto:

Arroteia 6 (Mombeja – Beja) no contexto da Idade do Bronze do Sudoeste Peninsular.
Eduardo Porfírio e Miguel Serra (Palimpsesto, Lda.); geral@palimpsesto.pt

Resumo: Durante os trabalhos de minimização de impactes sobre o património, a cargo da Palimpsesto, Lda., decorrentes do projecto “Conduta Santa Vitória, Mombeja, Beringel”, relativo à implantação de condutas de abastecimento de água às freguesias rurais do concelho de Beja, da responsabilidade da EMAS, EEM, foram detectados vestígios de estruturas escavadas no caliço brando da região que revelaram materiais genericamente enquadráveis na Idade do Bronze.

A intervenção arqueológica permitiu identificar duas áreas de interesse, ambas sob a designação de Arroteia 6, das quais uma apresentava-se bastante afectada pela intensa actividade agrícola característica desta região dos “Barros Negros”, não permitindo definir com rigor o contexto arqueológico a que se reportava, mas documentando a existências de níveis com materiais cerâmicos da Idade do Bronze. A segunda área escavada, permitiu a identificação de uma estrutura negativa de tipo silo/fossa, cujos enchimentos embalavam diversos materiais, entre os quais se destaca um conjunto taças carenadas enquadráveis no Bronze Final.

A análise espacial e morfológica da envolvente à área de intervenção permite considerar que estes vestigíos se podem integrar no grupo dos povoados abertos de fossas da Idade do Bronze, semelhantes a outros recentemente identificados nas regiões vizinhas de Beringel e Trigaches.
De facto, a área envolvente desenvolve-se numa plataforma homogénea de planimetria elipsoidal, composta por terrenos férteis integráveis nos solos de tipo “Barros Negros”, próxima de linhas de água sazonais, revelando a mesma estratégia de implantação de outros sítios semelhantes.

O povoado deverá ocupar parte ou a totalidade desta plataforma, apesar da intervenção apenas ter detectado uma estrutura, situada nos limites desta área.

Pretende-se efectuar igualmente algumas considerações sobre a eventual contemporaneidade entre este sítio e o povoado do Outeiro do Circo, bem como a relação entre ambos, integrando-os na rede de povoamento que começa a emergir nesta região.